terça-feira, 11 de maio de 2010

Sad tree friends





É fácil podar uma árvore. Não custa nada elevar a tesoura e cortar fora seus galhos cultivados por uma vida inteira. Só que quando eles se vão, vão embora também sua história, seu passado, seus traços mais marcantes.

Esses são sua vida expressada em lascas tiradas, em corações desenhados, em migalhas de piquenique deixadas, em restos de ninhos construídos por seus mais fiéis companheiros. Os galhos falam.

É fácil fazer uma árvore perder seu formato. Mais fácil ainda é fazer isso sem perguntar se ela quer sair de si.

Só que a essência fica. Uma mangueira continuará produzindo manga, afinal os galhos crescerão e novas histórias desenhar-se-ão. É um cicl
o interminável.

É fácil podar uma árvore. O difícil é conviver com as folhas secas que caem dela no outono.




W.A.M.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Nela

Ele não conseguia abrir seu coração pra ela. Sem mais explicações, fechou os olhos para a verdade.
Os olhos ficam na cabeça e esta não se dava bem com o coração.
O sentimento doía, mas doía na terceira pessoa.

W.A.M.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Andava tão a flor da pele...

A relva estava mais verde naquela manhã ensolarada. Parecia um presente da primavera que mal chegava. O prisma pendurado na janela a acordou reluzindo todas as cores de mais um dia no pequeno vilarejo.
A menina correu pelo campo até as derradeiras árvores. Sentia a necessidade de aspirar cada segundo daquele ar que de tão puro, revigorava. O vestido florido balançava ao sabor do vento que tornava-se mais forte a medida que ela corria.
De repente, parou. Freou bruscamente e ali, frígida, entendeu o motivo do sobressalto impulsivo. Havia mais para além do campo do que aqueles pomares com suculentos frutos. Havia o roseiral. E bem no centro, uma rara rosa destoava das outras pálidas e rubras. Não era escarlate, mas também nem de longe parecia branca. Era cor-de-rosa. Como em uma mistura das rosas majoritárias, aquela era a personificação do amor.
Apressou-se para tocá-la. Bonita, mas não era macia e sim áspera, porém essa aspereza não incomodava. Ela emanava uma sensação inigualável de carinho. Como poderia uma pequena flor passar um sentimento tão bom para aquela menina tão pequena?
Não hesitou! Arrancou a celebérrima do meio das outras com as pontas dos dedos. Mas não se sentiu melhor e notou que aquilo não lhe pertencia. Constatou que aquele seria um magnífico presente para pessoas especiais. Mas como dá-la a todos que amava se só havia uma?
Não importava. Carregando a flor, saiu esvoaçando o vestido pela relva. Tropeçou algumas vezes, mas continuou a correr. Encontrou então o que queria, aquilo pelo que mais prezava: seu amigos. Sem titubear, a garotinha foi arrancando da raridade que tinha em mãos pétala por pétala e entregando cada uma a um amigo diferente. Assim foi até a última. Restou-lhe o cabo.
As outras crianças pareciam felizes com suas amostras de afeto sincero. Deliciavam-se com a força emanada pelas pétalas cor-de-rosa, mas algo chamou-lhes atenção. A relva ficara vermelha, assim como a menina. A menina da rosa sangrava. Dara todo o afeto existente na flor e não notou que havia espinhos.
O vestido florido ficou escarlate. A pele alva, rubra. Os olhos sadios, pálidos. Ela conseguiria conviver com a dor daqueles espinhos em suas pequenas mãos, mas as pétalas nunca voltariam a se unir.

W.A.M.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O que faz você feliz?


Um mergulho no mar

cabelo desbotado

a cerveja gelada

ou com o caranguejo se sujar?


Uma pizza repartida

pastel caseiro

uma bola de vôlei

ou jantar com uma amiga?


Uma reunião descontraída

um convite inesperado

descascar com o sol

ou um abraço apertado?


Chocolate preto com caramelo

comida árabe depois da farra

uma carona pra longe

ou comer um marshmellow?


Acordar com uma mensagem

passar horas ao telefone

mandar um presente pra longe

ou chorar no ombro de alguém?


Um grito de alegria

um combo que vale por três

vencer uma briga de galo

ou rir dos amigos no outro dia?


O futebol na grama

contar os dedos de alguém

levar um caldo

ou aquela conversa na cama?


Hematomas que vêm do nada

Cerveja com pastel

uma confissão desnecessária

ou uma conversa inacabada?


Acordar os amigos de madrugada

ter uma mão pra segurar no cinema

oferecer uma cadeira

ou ser o motorista da rodada?


Uma tertúlia demorada

formar uma nova família

guardar segredos

ou um show de madrugada?


Pagar pro amigo uma comida

deixar alguém no aeroporto

um sorriso grátis

ou musicar a vida?


A vida musicada fica tão mais suportável. Não importa o que faz você feliz, o que importa é quem o faz.


W.A.M.

domingo, 4 de abril de 2010

A primeira

Um rosto angelical e o sorriso mais encantador que veria na vida. Foi o que ele pensou quando a viu. Diferente das outras que eram apenas efêmera diversão, ela transparecia as aspirações de uma vida. Uma vida que ele nem chegou a ter. Até aquele momento. Seria ela?

Os olhos dela sorriam apertados com os lábios escarando uma felicidade profunda. Nenhuma mais sorria assim. A harmonia da face formava um desenho digno das teorias de Da Vinci.

Não, nao era nenhuma Monalisa. Seu sorriso não inspirava mistério ou até mesmo medo. Ah, não... Seus lábios abraçavam. Falavam sem balbuciar uma só letra.

Ela estava lá, parada, olhando fixamente pro ser inerte, estonteado com sua beleza reveladora. Tão reveladora que não se sabia como decifrar tais revelações. De beleza tão escancarada que parecia intocável, impossível de ter.

Lá estava ela. O olhando com aqueles olhos apertados, o sorriso vibrante, os cabelos finos e desgrenhados. Pela face, adornos incomuns para o mundo do jovem observador. Adornos que falavam, tão por si quanto a imponência de sua figura curvada.

Ele resolveu que tentaria alcança-la de alguma forma. Mas como conseguir uma aproximação sem proteção para os olhos? Eram poucos os que conseguiam aproximar-se. O brilho daquela criatura ofuscava íris indignas.

Mesmo assim ele tentou. Tentou da forma mais óbvia possível. E despencou. Enquanto lágrimas formavam um mapa pelo rosto, ele se deu conta que meninos eram proibidos de brincar com bonecas e aquela estava na prateleira mais alta da estante.

O menino desistiu fácil, preferiu um carrinho qualquer, mas nunca esqueceria da boneca na prateleira. Com luz própria e, nas costas, em canetinha preta, um coração partido.

Era o seu.


W.A.M.

terça-feira, 23 de março de 2010

I do apreciate you being round




Viver não passa de uma brincadeira de criança. Uma brincadeira de encaixe. Achar os encaixes perfeitos é um sentido primordial da vida. Não se trata de forçar as peças, apenas de encaixá-las.

Um sorriso compartilhado em dias de festa e uma mão firme em noites de chuva formam a grandiosidade da vida. Mas não é permitido forçar.

O encaixe da amizade vem como quem não quer nada e nem é possível dizer exatamente quando ele se instala. As melhores coisas não podem ser explicadas com meras palavras padronizadas por homens, elas mais do que dizem: fazem.

Fazem voar em meio a um turbilhão de devastações, terremotos pessoais e choques atípicos. Aliás, fazem com que você queira perder as asas. Os amigos também servem pra colocar seu pé de volta ao chão.

Na amizade você não precisa pedir ajuda ou implorar por companhia. Elas vêm. Vêm junto com uma alegria incomparavelmente sublime de saber com quem se pode contar.

Amigos te dão carona e te alimentam no meio da madrugada. Te acolhem e fazem desaguar de dentro de você suas mais profundas angústias sem quaisquer intrumentos de sucção da alma. Amigos te consomem e pedem pra ser consumidos. São como algozes das gargalhadas que levar-te-iam ao paraíso, ou mesmo te fariam querer ir até o inferno se lá eles estivessem.

Para viver é necessário achar um encaixe. Um basta, mas quando ele vem em bando pode formar um castelo que te abrigaria das mais furiosas tormentas.

Se viver assim, com essa intensidade voraz de uma criança que quer conhecer o mundo, é tão incrivelmente devastador, então quero eu perder-me na intensidade de uma nova vida. Eu não consigo ser pela metade. Sentir e meio-termo não populam a mesma frase.

Quero mergulhar nas entranhas de uma noite empática, povoada de sorrisos amigos e pérolas dignas de um livro de anedotas. Quero conhecer uma alternativa melhor para as noites tediosas dos domingos sem graça. Quero achar a graça de cada momento. Mais do que qualquer coisa, não quero que lembrem de mim e digam que "ela é muito só", mas que "ela é intensa".

Para isso é necessário se desvencilhar do passado e entregar-se a esses seres indispensáveis. A vida sem amigos seria... seria uma morte.

Quero a intensidade de uma vida de algodão. Moldada ao sabor do vento e cheia de formas surpreendentes.


W.A.M.


quinta-feira, 4 de março de 2010

I will try to fix you

O bar estava cheio de pessoas perdidas. Cada uma tentando se encontrar em outros sorrisos, outras bocas, nos caminhos dos outros sem ao menos darem-se conta que os caminhos de alguém são mais perdidos que os próprios. Somos cientes de nosso desencontro, mas é impossível encontrar-se nos caminhos de mais alguém.
Em meio a esse turbilhão de encontros desencontrados, alguém preferia perder-se dentro de si. A garota no bar, com um copo na mão, austeridade no cenho e uma mensagem na testa.
Ali, no canto do bar, ninguém a enxergava. Parecia ter uma aura intocável que gritava: "Eu já encontrei!" Mas não era verdade. Era alguém perdida que não queria encontrar os caminhos errados de mais ninguém, queria apenas saber qual era o seu.
A música invadia o local e ninguém mais, além dela, parecia ouvir. Os perdidos não conseguem concentrar todos seus sentidos em um só alvo. Ela conseguia. Enquanto todos cantavam "I will try to fix you", ela tentava to fix herself.
Mas de repente tudo foi ficando mais turvo, de uma cor azulada que ela não saberia identificar. As pernas fraquejaram, o chão se abriu e ela caiu. Caiu em si. Desabou na verdade de seus desencontros e se perdeu. Ali, sozinha, como se ninguém mais pudesse vê-la, ela se conformou.
As pegadas deixadas pelo chão não caberiam nas solas de outros pés.

W.A.M.


domingo, 28 de fevereiro de 2010

Em busca de uma esmola

Que as brumas desencrubam esse coração e o levem muito além desse óbvio obsoletismo. Que ele seja capaz de dar e receber um sentimento puro e nobre o qual nunca conheceu.
E, sendo assim, que felicidade se instaure em sua vida. Não só a felicidade, mas que também se sinta miserável e, dessa forma, mais humano.

W.A.M.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Negra calmaria

Não sou uma mulher, mas um rio. Posso ser tanto clara e calma como negra e obtusa. Minhas águas correm entre bifurcações que podem levar-me à fonte da vida ou a lugar nenhum. Revoltas como a tempestade, banham novas margens e moldam montanhas para desaguar de alturas exorbitantes e tornarem-se a calmaria que mata a sede de outrem, menos a própria.

W.A.M.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Manual de costura

Sabe aqueles sentimentos? Aquelas sensações pérfidas e involuntárias que vão e voltam em enlouquecedor efeito sanfona deixando marcas que vão além do sedoso tecido epitelial, sabe delas? Não você não sabe não é? Talvez porque nunca deixou que nada ultrapassasse a pele pelo simples medo de agulha. Medo daquela agulha que costura um no outro utilizando as próprias entranhas como barbante até sentir-se sufocado no vermelho, quente e protetor pulôver proveniente.

Lembra daquele último beijo que disseste não ser o último, mas o tornou tal? E aquele aperto de mão que quisera que fosse o primeiro de muitos, mas não ousou apertar as outras mãos de novo porque eram ásperas demais? Aliás, quantas vezes disseste que ia mudar tua vida, que ia se renovar a cada dia? Não me faça rir. Venho por meio desta informar-te que és uma piada. Daquelas bem chulas encontradas nas compilações de anedotas em bancas de esquina com folhas amareladas pelo tempo.

Me diz: O que falta para que tua vida seja melhor? Vou te dizer uma coisa: não aguento mais conviver contigo, maldita criatura que morre de medo de sentir. Sentir a si e principalmente sentir ao outro. Onde ficou aquela alma de poeta que disseste ter há uns anos atrás? Por acaso crês que tua mediocridade continua a mesma? Tu és a cada dia mais insuportável para si mesmo.

Sinto-me transtornada ao lembrar do que vivemos juntos; aliás, do que não vivemos juntos, pois tinhas medo do que pensariam os outros. Sim porque talvez aquele beijo não fosse digno o bastante ou aquele abraço constranger-te-ia.

Maldita sejas tu, abominável criatura que faz-me doer fundo no âmago como se deitar em cama de faquir fosse remédio para o transtorno no corpo e da alma neste momento. Que digo eu! Que alma? A mesma que tu elucidaste amar sem conseguir sustentá-la?

Não, não diga nada. Tu não és digno das próprias cordas vocais. Queres reivindicar direito de resposta? Então, primeiro VIVA! Vai! Fala com quem nunca mais falou, desenterra amores inacabados, acaba teus assuntos, procura novos e termina-os. Vamos! Tome um porre, dance, diga um palavrão, leve um murro para ver se ainda sentes essa tua cara. Prove dos melhores venenos e dos piores remédios, frequente os melhores cabarés e as piores igrejas, corras atrás do seu direito de ser imperfeito. Tranque o passado, jogue a chave aos tubarões e depois, nade com eles. Arrisque sua vida! A morte por uma tentativa é mais digna que a simples morte na passividade.

Seja! Ande sobre brasas até que seus pés criem resistência ao fogo, mas não os deixe muito tempo para que percam a sensibilidade. Sinta!

Estás com saudade? Abrace! Queres beijar? Vá em frente! Se livre desse medo e depois venha falar comigo. Mas só venha quando souberes costurar.

W.A.M.