quinta-feira, 17 de maio de 2012

Ovos mexidos e liberdade, por favor


2012. Um homem visita a antiga casa, hoje entre tantos outros galpões em um enorme campo verdejante. Os olhos cansados mal acreditavam na beleza daquele lugar em um pedacinho da Alemanha. Nem o verde, nem as flores, nem o dia ensolarado o distraíam do odor que vinha com as lembranças. Era um cheiro familiar... de amigos. Queimados. Mortos. Por seres que se auto-intitulavam humanos.
Difícil enxergar a beleza ao sentir o que caía em sua pele. Poeira trazida pelo vento. Como as cinzas em outro dia de sol que ficara no passado. Naquele dia no qual vira sua mãe pela última vez. "Amor, vou com sua irmã, volte para lá! Nos veremos mais tarde!", dissera ela entre os gritos dos soldados. O 'tarde' nunca chegou...
Não lembrava de ter dito adeus, apenas uma voz de um homem sem rosto ecoando em sua mente. "Está vendo aquilo? - apontou para uma enorme chaminé - É  a sua família virando fumaça".
Como podia sentir a brisa como o outros? Apenas ouvia a marcha de homens, mulheres e crianças esquálidos e silenciosos em seus pijamas brancos e azuis.
Não lembra bem como escapara. Só de ouvir o fogo dos fuzis alemães enquanto correra com toda força que sua magreza permitira. Mais tarde vira pilhas de homens e sangue. Amigos. Parentes. Mas não ele.
Apagou e  acordou dentro de um tanque de guerra. Acordou vivo e livre. Não mais tivera de comer os próprios piolhos para sobreviver. Queria apenas ovos mexidos e uma vida normal.
Os tem agora e dá ainda mais valor às rugas com as quais o tempo livre o presenteou. Rugas que muitos homens que dormiram ali, ao lado dele, naquele galpão, não tiveram oportunidade de ter. Homens humildes, honestos... amigos.
O velho vira tudo calado e assim permanecera como se fosse o primeiro dia do resto de sua vida. Mas não restava muito. Acendeu o charuto e esperou queimar. Tinha certeza que em algum lugar entre a câmara de gás e a eternidade, ela a esperava sorridente para dizer: "Eu disse que nos veríamos mais tarde".

W.A.M.

domingo, 13 de maio de 2012

Dia da verdade


Dizem que há uma mãe dentro de cada mulher eperando para ser libertada. Concordo em discordar. Nessa semana, os jornais estavam cheios de notícias de mães que abandonaram filhos em lixos, uma que espancou a filha até a morte, outras que simplesmente vemos pelas esquinas utilizando suas crianças para ganhar dinheiro.Essas mães nunca foram libertadas e merecem continuar lá, enjauladas em outro tipo de cela. 
Mas hoje é dia das mães e essas historias com certeza não podem ser maioria. Nada supera o amor de uma verdadeira mãe. A minha é a melhor mãe do mundo. Sim, a minha. Sei que se for um bom filho, vai discordar, espero que sim.
Não há nada melhor que acordar sonolento pela manhã com aquele cheirinho de café feito na hora, voltar pra casa e comer a delícia do almoço de mãe. Cada momento é único. Aquele no qual ela me ensinou a amarrar o sapato sozinha, o sorriso lindo que veio com a primeira estrelinha ganha no caderno, o colo quentinho enquanto assistíamos ao seriado do super-man.
E as brigas? A única pessoa com quem brigamos com a certeza de que depois tudo estará bem e ela será a única que não nos abandonará. Até brigar com mãe pode ser mais gostoso.
Hoje é dia da minha mãe, da sua, das verdadeiras. Das professoras, faxineiras, empresárias, secretárias, advogadas, carroceiras. Hoje é dia de mãe. Dia de fazer-mos nós o café, o almoço, de escolhermos a roupa que ela vai sair, de deixá-las lindas e de ama-las. Dia de orgulhar-se por ter uma ao lado.
Hoje é o dia delas, para elas, todo dia é nosso. Nada pode ser mais verdadeiro do que isso.

Te amo, mãezinha.

W.A.M.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Sorriso de prateleira

Nada é o bastante para suprir nossas expectativas. O problema é exatamente este: há expectativas.Elas são geradas de forma inconsciente. Tiremos o mercado como exemplo. Há uma enorme variedade de tipos de cada produto, o que gera uma enorme variedade de escolhas e liberdade para levarmos o que nos apetece. Bem, não é bem assim.Tantas escolhas nos prendem à indecisão, quando finalmente o produto é escolhido, notamos que ele não é perfeito, há o arrependimento. A sensação de que podíamos ter feito melhor, que a nossa expectativa era maior que a realidade encontrada.

Assim é na vida. Estamos sempre em busca de mais, do perfeito, que tudo aconteça exatamente como pensamos sem dar-nos conta que não podemos ter tudo que queremos.Isso desagua em um problema maior, mas não mais profundo que a escolha de uma escova de dentes no supermercado: a busca pela felicidade.

Um pensador contemporâneo, o qual infelizmente não recordo o nome no momento, disse que "o segredo para a felicidade é baixa expectativa". O segredo não está em ter exatamente o que se quer, mas em ver a perfeição no torto. Em pegar o que se conseguiu e transforma-lo em felicidade. Em suma, a felicidade é um produto mais fácil de se encontrar que qualquer outro, há apenas 2 escolhas: lamentar-mo-nos pelo que poderia ter sido ou sermos felizes pelo que é.

W.A.M.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Saber branco

Toda forma de conhecimento é válida. Toda. Principalmente a dos cabelos brancos. No último final de semana tive a chance de escutar um senhor muito sábio falar. Sobre mirtáceas. Sobre a vida. Eu, jovem que sou, ouvi atentamente a aula gratuita proferida por aquele homem de rosto maduro e amigável e cabelos prateados pelo tempo. Não havia outro lugar no qual preferia estar.

Sempre aprendo com a experiência grisalha. Meus avós também muito me ensinam. Eles não estudaram, minha avó materna nem sequer sabia ler, mas são muito mais sábios do que sonho em ser. Eles me ensinam sobre a vida. 

Paternos e maternos viveram em casas de taipa, batalharam duro por uma vida melhor. Erraram. Aprenderam. Ensinaram meus pais. Estes, já sexagenários, me ensinam a cada dia o valor do suor, do trabalho duro, do estudo e busca pelo conhecimento. Eu só tenho a aprender e admirar.

Se pudesse dar um conselho, mesmo com meus cabelos pretos quimicamente aruivados, seria: escute. A leitura engrandece e ninguém pode roubá-la, mas há mais meios de aprendizagem. Escutar a sabedoria daqueles que viveram. Explorar o que os olhos esbranquiçados aprenderam com a vida e o que tornou os cabelos prateados.

Meus avós, pais e o sábio senhor botânico sabem mais do que muitos de nós saberemos. Dos livros. Do mundo. Dos cabelos brancos de sabedoria.

W.A.M.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Despedida hiperbólica

Sou hiperbólica. Defeito básico de jornalista / ex-atriz de teatro. Sim, não há dúvidas, exagero ao expressar diversos tipos de sentimentos, porém há coisinhas que não consigo entender nem exagerando no meu pensamento.

Todos temos defeitos e o respeito / carinho nos fazem conviver e amar uns aos outros. Nem todos. Há aqueles seres-humanos superiores, dedicados ao extremo... em apontar os defeitos dos outros. 

Sabe aqueles que dizem o quanto você é isso ou aquilo, fala do que você faz em tom de crítica destrutíva? Todos conhecemos alguém assim. Aliás, 'alguéns' (se o sr. Aurélio perdoar-me o mau plural). E esses não são os amigos que estão lhe dando um conselho para que evolua, falo dos que sentem-se incomodados com algo e, em vez de se retirarem, aconselharem, falam mal.

O que estou fazendo agora? Apontando os defeitos deles. Vingança? Desabafo? Não sei. Apenas sei que minha verborreia clamava por ser vocabulada em forma de escrita. É. Sou hiperbólica.

Aproveito para fazer um pedido. Aconselhe-me. Me ajude a crescer. Se quer me ajudar a escrever textos como este, por favor, sua melhor crítica é a visão das suas costas. 

Grata.

W.A.M.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Quadrada


Não adianta o quanto insistam, sou quadrada. Não nasci há muito tempo, nem cheguei a conhecer de fato os anos 80. Naquela época este notebook no qual escrevo nem ao menos era um protótipo.
Houve um tempo, e me recordo bem, no qual as pessoas iam às casas dos amigos pra conversar ou simplesmente ligavam. Se isso não fosse possível havia ainda a carta, que apesar de não permitir ouvir ou ver o outro, tinha a pessoalidade da letra escrita, elaborada a cada palavra, com jeitinho de cuidado e carinho.
Hoje, vejam só... há as redes sociais. E querem me convencer que elas aproximam as pessoas. Talvez os que moram em outros estados / países - infelizmente os outros meios ainda são deveras caros - mas é demais para eu entender por que alguns evitam o contato real pelo virtual.
Seria hipócrita se disesse que não as uso. Utilizo e bastante. Também sou do tipo que tem preguiça de conversas ao telefone, prefiro sms - há vezes que penso que tenho preguiça para pessoas. Porém não creio que elas aproximem ninguém, pelo contrário.
Vejo uma pressão social enorme para o uso dessas redes, principalmente o facebook. Quantas vezes passei o final de semana só em casa porque não atenderam o meu chamado e principalmente porque convidaram-me pelo tal facebook e não tive a chance - ou interesse - de acessá-lo. Em quantos aniversários amigos que estão de fato em meu coração não deixaram um reles 'parabéns! Tudo de bom' em minha página e não tiveram a educada consideração de ligar-me.
E isso não é só relacionado a mim. Conheço mais pessoas que corroboram com minha ideia. Poucas, mas conheço. Mesmo que a desconsiderem, não adianta o que digam, sou quadrada sim. Sou da época dos livros amarelados e das conversas na varanda. Nem mesmo sei usar um Ipad... 
Bom, deve ser mesmo uma grande besteira o que escrevo, afinal, se não fosse esse blog talvez nem dividiria essas ideias estapafúrdias com alguém. .
Agora devo por fim nesse texto, hora de postá-lo no facebook. Até mais.

W.A.M.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Desentendida


Há coisas que não consigo entender. Talvez elas simplesmente não devam ser. O que, erroneamente, me faz ter uma ânsia adolescente de entende-las ainda mais.

Complicado? Talvez. Assim como eu. Complicada e curiosa. Mesmo o segundo adjetivo nunca me ajudou a entender o primeiro. Imagine então entender o resto do mundo...

Tudo que sei é que nada sei - com o perdão do descarado furto ideológico. Ainda assim tento saber de tudo um pouco esquecendo que devo antes de mais nada saber o que há em mim.

Vejo em mim um hibridismo estonteante. Não formas, cores ou sentido, - este muito menos - e sim uma mistura de "micro-conhecimentos" e "macro-desejos". Nada basta em mim ou para mim, não consigo pensar em limites quando as minhas fronteiras vão além do que me deixam ser e sentir.

Dá pra entender? Não, né? Imaginei desde o princípio... E assim deve ser. Simplesmente parar de querer entender e apenas sentir. A mim. Os outros. O mundo. Mesmo que o meu seja tão complicado.

W.A.M.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Lá no fundo...

 

Há uma coisa que Newton não percebeu. A inércia deprime. Todo corpo estagnado, sem estímulos, continua parado e... deprimente.

 

O meu sempre foi animado, com uma iniciativa própria que movia a si e a outros corpos. Não mais. Há um peso dentro de mim, uma âncora caída afundando-me cada dia mais. O desejo porém é outro. Desbravar novas possibilidades, descobrir caminhos, estar no topo do mundo, mas... sempre há o mas.

 

É deprimente buscar e não sair do mesmo lugar, colecionando decepções, decepcionando. Enegrece o que deveria ser verde. Essa bendita esperança.  

 

O movimento que me salva da inércia  agora é outro. É a âncora me levando até onde o mar perde o tom esverdeado e torna-se negro e atormentado.

 


W.A.M.

sábado, 21 de abril de 2012

Saudade da saudade

Qual é mesmo aquela palavra? Ah! Claro! Como poderia esquecer? Está diariamente nas atualizações das redes sociais, nas mensagens, nos lábios... A tal da "saudade".

Aspas poucas vezes me foram tão úteis. Aqui estão cercando essa palavra que existe apenas na língua portuguesa e inexiste de fato dentro daqueles que a utilizam. Saudade. Tão verbalizada, tão incompreendida.

Hipócrita seria eu em dizer que não ajudei a deturpar seu significado. Quantas vezes dizemos que sentimos saudades quando sentimos apenas falta? Sinônimos com significados tão distintos... Uma simples falta de uma semana, um mês, nunca será a saudade de quem partiu. Falta é pouco para caracterizar o que sentimos ao sentir a poeira de um álbum cheio de sorrisos. Isso sim é saudade.

Venho, então, defender o obsoletismo de palavra tão rara para o resto do mundo. Que ela volte a ter dentro de nós, quando falamos e ouvimos, o mesmo significado do dicionário. Uma enorme falta, não um meio de iniciar uma conversa ou chamar atenção.

Voltemos a sentir saudade de senti-la. Para que os reencontros e memórias sejam uma vez mais tão saborosos quanto deveriam ser.

W.A.M.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Maldição de Eros



Os gregos que me desculpem, mas Cupido não era um Deus, era sim um farmacêutico dos melhores. Essa tal de paixão não é nada mais que uma mistura de substâncias que deram errado:
Dopamina, feniletilamina e ocitocina. Sim, errado, pois elas só se encontram no início dessa patologia.

Pobre Eros [cupido], criou tantas substâncias, as misturou de forma genial e continua criança para sempre. Um menino pequeno, frágil e solitário que só cresce ao lado de seu companheiro Anteros (o amor partilhado), mas não demora muito e lá está o pobre, só mais uma vez, tentando entender que ingrediente esqueceu.

Ouso pedir licença ao senhor Eros, filho da bela Vênus, para dar-lhe um conselho. Talvez sua união a Anteros só se torne possível se antes ele faça mais uma experiência e descubra a fórmula do amor-próprio. Esse sim faz crescer, fortifica e transforma meninos em homens.

O menino Cupido está sempre unindo e tentando reconquistar seu amor, esquece que a felicidade não depende de estar com alguém, mas de estar bem consigo mesmo. O amor é dependente, a felicidade não.

Bom, não sou eu, leiga [com orgulho] em assuntos do coração que ensinarei a Eros algo. Se pudesse realmente fazê-lo ouvir-me, diria para ele libertar Crônos do tártaro. Só ele, o tempo, cura.

W.A.M.